Caros Amigos Gráficos
Falar claro é a minha forma de ser; falar claro é ter a coragem de dizer o que deve ser dito, sem medo das considerações subjectivas de terceiros. Calhou-me em sorte ser assim, e mesmo correndo o risco de ter que pagar o preço de falar claro, não consigo ser diferente.
Este início de conversa tem a ver com o último Encontro Aprigraf 2019, realizado nos dias 11 e 12 de Outubro, em Évora, a nossa cidade museu, com um património monumental riquíssimo, cotado pela UNESCO com valor de Património Universal. Património que teve visita guiada para as senhoras acompanhantes.
 
Se há evento no calendário anual da Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas que eu gosto mesmo de participar, ele é, por certo, o seu Encontro Anual. Apraz-me, na qualidade de patrocinador, ver pessoas com quem convivi de perto num passado recente, e conhecer outras, cruzadas no mesmo destino determinante que a todos nos une: as Artes Gráficas.
O Encontro, dignificado com a presença do Presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), António Saraiva, que lhe acrescentou um significado particular, não só pela presença, mas sobretudo pela lucidez da sua intervenção, à altura do cargo que exerce em defesa do tecido empresarial nacional, e de outros convidados de renome, que vieram de longe para falar sobre o que de negativo enferma o sector, para que este se interrogue sobre os porquês da sua impotência em criar escala que o projecte para além do exíguo mercado doméstico, cuja capacidade para alimentar a indústria gráfica nacional é cada vez mais débil.
O panorama das indústrias gráficas, a nível ibérico, foi espelhado fielmente às empresas presentes, tornando evidente que a indústria gráfica nacional terá de pautar o sentido e a razão, não pela medida caseira como até agora, mas construindo uma indústria a respirar amplitude, que lhe permita ser grande entre as grandes. Enquanto esta se pautar pela pequenez das suas empresas (96% até 10 trabalhadores), em vez de se impor como uma verdadeira indústria, continuará num desânimo fatalista, cedendo sem luta a países que vão actuando na hora.
Do que foi referido, percepcionou-se uma tentativa de identificar e recomendar soluções possíveis positivas, que poderão ser exploradas no sentido de ultrapassar a presente situação no que se refere à pequena dimensão das nossas empresas gráficas.
 
No sector gráfico, os empresários têm vivido demasiados anos de costas voltadas, desperdiçando oportunidades para projectos conjuntos ou de cooperação mútua. É necessário que haja outra abertura, que conduza a oportunidades de negócio, e também a novos mercados. Para isso, é necessário criar massa crítica. O problema, até agora, é que ninguém tem mostrado predisposição para romper com o passado e construir o futuro noutros moldes. Todos querem ser donos das suas empresas, ainda que a sobreviverem por um fio, a serem sócios ou accionistas de um grande projecto empresarial.
Actualmente, a dinâmica e capacidade produtiva das empresas é determinante para penetrar no mercado global de forma competitiva.
 
Ao associar-me a este evento na qualidade de patrocinador, há em mim uma exigência intuitiva de inventariar a sua realidade associativa. Venho constatando, com muita tristeza minha, que o corpo e espírito da classe, já quase perdido, necessita de enzimas para se reencontrar.
A APIGRAF é um contexto de afinidades e interesses confinados a uma realidade autónoma da actividade para que foi criada. Que futuro pode esperar quando os seus associados não partilham dela com espírito associativo, e se ausentam quando são convocados pela sua Direcção Executiva? Nenhuma presunção teórica pode negar o nosso singularismo individualista de cada um por si, quando o lógico seria a união de pessoas com fins e interesses comuns.
Num tempo marcado pela subversão de valores, há um que não se pode perder a todo o custo: o da unidade. Isto significa que no destino comum que representa a APIGRAF, urge substituir o EU pelo NÓS, a indiferença pelo espírito de coesão, o individualismo pelo associativismo.
 
Não posso terminar este meu falar claro sem fazer eco da disponibilidade dos corpos directivos e, em particular, da Direcção Executiva, que graciosamente investe muito do seu tempo contribuindo, como soldados militantes, com a nobre missão de servir a sua Instituição, desenvolvendo um trabalho eficaz, cientes de que a união constituiu um elemento fundamental de qualquer classe profissional/empresarial. Porém, o trabalho desenvolvido parece não encontrar eco do outro lado. Lado, que não devia regatear reciprocidade e respeito pelo esforço de colegas que dão o melhor de si em benefício de todos.
Num universo de cerca de 400 empresas associadas, apenas cerca de 50 marcaram presença no evento (direcção incluída). Tantas ausências, demonstrando desinteresse e indiferença pelo esforço de colegas que, abnegadamente, saltando por cima dos seus próprios interesses pessoais/profissionais, colocam o seu tempo ao serviço da Instituição, que é de todos, afectam e desmotivam o espírito de iniciativa de qualquer direcção, ao não se sentir nem apoiada nem reconhecida.
 
Falei claro?
 
Fazer de conta serviria apenas para alimentar, uma vez mais, um equívoco que, como patrocinador, não desejo. É preferível, pois, a verdade, mesmo descortês, do que esconder aparências que são o calcanhar de Aquiles de que sofre a APIGRAF: associados que são uma espécie de bichos de concha, insensíveis e indiferentes ao corpo associativo que os une.

 

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