Divagando sobre o Natal!

Com o Natal à porta, é chegado o momento de fazermos um balanço das coisas boas e más que aconteceram nas nossas vidas durante os doze meses do ano. É sempre moralizador chegar a esta altura e esforçarmo-nos por corrigir eventuais erros cometidos e tudo aquilo que nos dói na consciência, com um arrependimento retroactivo. É uma contrição que alivia o nosso subconsciente ou aquilo que nos dói na alma.
Embora, pela minha parte, esteja em paz comigo, não passo de um mero espelho que não reflecte aquilo que se passa na consciência alheia. Natal aproxima o coração da razão, que é o plasma que controla a argamassa da nossa estrutura moral.
Confesso-vos, com a frontalidade com que vos habituei, os esforços que fiz para lhes trazer aqui uma crónica alegre, a cheirar a Natal. Mas dentro de mim não há balsamo que suavize a tristeza de saber que para muitos dos nossos compatriotas o Natal é triste de entristecer.
Perdão por vos lembrar que neste nosso lindo país ainda há muitos deserdados da sorte. Vidas sem rumo e sem meios, a viver em cubículos gelados cheirando a mofo, com mesas escassas de alimentos; crianças famélicas, sem afectos, sonhando comida e brinquedos que não têm.
Uma terrível realidade a que os olhos dos nossos governantes se cerram, insensíveis a quem rabeia no desespero. Deserdados com raiva de justiça, gente amargurada de barriga vazia, a merecer viver numa sociedade justa, em condições dignas, sem discriminação.
 
O ano de 2018
O ano que agora acaba deu-me uma linda soma de dias felizes em comunhão com os que me rodeiam: família, colaboradores, clientes, fornecedores, amigos, etc., com o prazer que dá conviver com pessoas que nos amam ou que nos animam nas horas mais desencorajantes.
Foram anos de espera até 2018, mas até que enfim dei aos meus olhos a alegria que muito sonhara: ver ao natural a última das sete maravilhas do mundo que me faltava conhecer: Machu Picchu – uma aventurosa viagem a refrescar os olhos deste velho caixeiro viajante, que não dá tréguas aos seus 91 anos, e ainda pede messas a muita juventude, que fisicamente derreada, já não aguenta uma boa marcha.
Machu Picchu, como é sabido, é uma cidade edificada no alto de uma montanha da cadeia Andina, em seu tempo habitada por um povo fantasmagórico, que apenas deixou de si o testemunho de uma cidade fantasma, que se contempla a admirar e a imaginar como foi possível aquele povo, àquela altitude, construir uma cidade refúgio, descoberta em 1912, para se esconderem dos espanhóis, seus conquistadores e algozes. Um santuário sagrado, que testemunha e espelha assombrosamente do que foi capaz de fazer um povo angustiado e em desespero, para fugir e se esconder dos seus opressores.
Valeu a pena peregrinar pelo Perú e pelo Chile até à Patagónia, onde ali a natureza, em seu estado puro, inundada de montanhas, florestas, lagos e glaciares, tudo enleado de silêncios e de beleza tanta, nos deixa cansados de tantas felizes emoções, e enamorados daquela obra-prima criada pela mão de Deus.
Do Chile despedi-me com boas recordações; do Perú com pena e algum alívio. Pena, por saber que, provavelmente, não voltarei a ver aquelas maravilhas; alívio, por não voltar a ver mais casebres que eram enxovias humilhantes, como tive ocasião de observar em Cusco e noutros lugares, habitadas por gente silenciosa, de olhar vazio, que não compreende a crueldade de um mundo tão desigual.
 
Envelhecer com juventude
Há pessoas que quando chegam a uma certa idade as ideias já não progridem como antes, e o corpo é uma ruína humana. Há outras, tão solidamente construídas, que parecem imunes à oxidação que o tempo provoca, no corpo e na mente. É como se à medida que os anos passam fossem aumentando todas as suas capacidades, físicas e mentais.
Consola-me ser dos poucos que podem gabar-se de ter chegado a esta provecta idade relativamente jovem, ao mesmo tempo contribuinte activo e convivente lúcido, andarilho confesso a calcorrear o mundo, ainda com muitos sonhos dentro de mim.
Espero chegar aos 100, e Deus queira que sim, pois ainda tenho muito coisa para descobrir e aprender antes do desfecho fatal no fim da caminhada.
Os discretos sinais de velhice que se notam não me impressionam, pois servem para realçar a minha imagem e são uma espécie de triunfo pessoal em luta com a idade.E, assim, dou por findo mais um diálogo fútil convosco, desejando-lhe um Feliz Natal e Próspero Ano Novo.
 

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