Incentivar a leitura – é preciso!

A tendência cada vez maior da internet e a sua influência sobre os nossos hábitos de leitura e de consumo de informação escrita, tem levado a que até mesmo as crianças e os jovens já não utilizem o papel impresso para ler, como antes. Teme-se, portanto, que as gerações futuras venham a prescindir dos meios impressos.
Nesta perspectiva, a pergunta que se coloca é a seguinte: têm futuro o livro, as revistas e os jornais impressos?
Do meu ponto de vista, sim e não. Sim, se o fomento da leitura tomar em sério converter as crianças e os jovens em leitores de papel impresso, oferecendo histórias atractivas, bem adornadas com ilustrações e design apelativo, de forma a estimular-lhes o hábito de leitura de qualidade; não, se não houver projectos de cooperação entre editores, escritores, escolas, fundações e o próprio Ministério da Educação, para uma estratégia global de incentivo à leitura, criando bibliotecas comunitárias em parceria com as autarquias, promovendo concursos de leitura atribuindo prémios de livros autografados, etc., etc. No caso em que o interesse é de todos ou, pelo menos, é o interesse do grupo, exigiria iniciar muito cedo essa prática, de forma a impedir, tanto quanto possível, que as gerações futuras passem a prescindir do papel impresso e se tornem dependentes dos meios electrónicos.
 
As crianças gostam de ler e de rabiscar em papel, mas necessitam de incentivo e de ajuda. Devido à grande oferta de novos meios, é mais difícil animá-las a ler. Como muitas delas provêm de ambientes em que ler não é algo quotidiano, estas crianças, sem o apoio de entidades que podiam levar a cabo um projecto de incentivo à leitura, acabam por aceder cada vez mais às novas tecnologias.
Atendendo às consequências, as entidades mais interessadas na divulgação de meios impressos, neste caso o livro, que é no fundo a essência do seu próprio negócio, deveria preocupar-se seriamente pelo público jovem, com leituras infantis, a fim de fortalecer os vínculos com este grupo de idades, de forma a desenvolver-lhes estímulos aos meios impressos.
Crianças que carecem desse hábito têm mais problemas de aprendizagem na escola. Porém, se puderem aceder em tempo útil a livros e revistas infantis adequadas a cada idade e entendimento, seria uma semente, que a cuidar desde cedo, daria bons frutos.
Na escola, ler é uma tarefa. Em casa, a leitura de contos infantis é uma forma entretida de ganhar paixão pela leitura, que se transformará em prazer na idade adulta.
 
Numa minha ida ao Brasil, há alguns anos atrás, tive oportunidade de visitar no Rio de Janeiro um Salão do Livro, a decorrer na altura, voltado aos pequenos leitores, organizado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – uma espécie de organização não-governamental, que luta para incentivar a leitura do livro. Uma espécie de bienal dos pequenos leitores, com mais de cinquenta stands, com rodas de leitura, encontros com autores e ilustradores, e até a criação de uma biblioteca modelo, somente com os livros altamente recomendados pela Fundação.
Foi uma loucura. Milhares de crianças encheram diariamente o Salão durante todo o período do evento.
O Salão do Livro, que ao que sei se estendeu a todo o Brasil, é apenas uma das inúmeras actividades da fundação. Na batalha para incentivar a leitura em crianças e jovens, seleccionam aqueles de melhor qualidade – originalidade do texto, boas ilustrações e projecto gráfico – que as editoras enviam, e que depois as Secretarias de Educação, escolas e bibliotecas de todo o país compram. Tudo isto depois de efectuado um concurso intitulado O melhor para a criança, com um prémio instituído. Uma espécie de distinção máxima aos melhores livros infantis e juvenis.
É óbvio que este sucesso poderia ter repercussão idêntica entre nós, se as entidades que atrás referi, acreditassem na ideia e quisessem trabalhar nesse sentido.

Por muito excelente que seja a imagem no ecrã, não há ponto de comparação com as vantagens que o livro impresso oferece em relação aos meios electrónicos. No entanto, os meios informáticos atraem de maneira fácil o activo humano mais precioso de um país: as crianças e os jovens. A tendência é clara. Hoje, mais do que nunca, um indivíduo que não seja encaminhado na juventude, poderá encontrar um derivativo que o absorva, nem sempre o mais conveniente nem o mais adequado para a sua formação.
Difundir largamente o gosto pela leitura em papel nos primeiros anos de vida, sem olhar ao preço, deve ser também o esforço deliberado de pais e educadores.
A realidade actual compromete todos a lutar num terreno que já começou a ser minado, de forma a impedir os meios virtuais na sua progressão até ao ponto em que quanto mais se arreigam, tanto mais se convertem em intocáveis. Esboçar terapêuticas que atraiam as crianças e os jovens à leitura impressa, é não deixá-las como presas de invisíveis tentáculos.
 
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