Direi desde já que não tenho a pretensão de alcançar uma objectividade perfeita nos comentários que teço. Seria uma ingenuidade minha acreditar que aquilo que penso e escrevo deixe eco desse lado.

Tenho de me resignar até onde podem chegar e permanecer as minhas opiniões e deduções. Para o resto é chover no molhado ou sol de pouca dura. Não importa. Como actor e espectador de uma actividade que me toca por sentença, dou comigo a moer o juízo na almofada da inquietação, a pensar que depois de uma década de devastação do sector gráfico, não haja ainda sinais de que algo de substancial pode estar a mudar.
 
Não sou, realmente, profissional do pessimismo, sejam quais forem as desilusões, no entanto, há por vezes razões concretas de apreensão que me empurram a apalavrar sobre o que me preocupa.
Falando simples e claro, o que me preocupa é o registo continuado de tantos e tantos óbitos no sector gráfico, de empresas que por razões crescentemente associadas à crise, que travou o passo a negócios estáveis e rotineiros, mas também, em muitos casos, à falta de renovação tecnológica - que ignoraram ou desvalorizaram –, condição necessária para que se projectassem e desenvolvessem  de forma a poderem estar no mercado de igual para igual, foram perdendo competitividade e, como consequência, não conseguindo resistir aos mais fortes, foram definhando economicamente e, nestas circunstâncias, não há governo de casa que resista.
Que desconsoladora visão da realidade de um sector em que uma parte não consegue dar a volta por cima à sua crise encontrando caminhos que permitam dar uma nova forma de vida ao seu negócio.
 
A somar às inúmeras insolvências já ocorridas, que mais parece uma praga, acrescente-se agora ao rol mais umas tantas empresas, entre as quais destaco: Fernandes & Terceiro, Costa & Valério, Projecção e Quadricor, entidades que tiveram no passado uma significativa relevância e que agora deixaram de ser sujeitos da história. Situações particularmente chocantes, que já fazem parte da atmosfera que rodeia o sector. No meio deste cenário destacam-se, felizmente, numa escala alargada, excelentes empresas bem estruturadas, que não ignorando as possibilidades criativas da tecnologia, que marcam o ritmo dos seus negócios, estão renovando constantemente, não por gosto certamente, mas porque estão obrigadas a isso para se manterem na crista da onda.
 
Estas insolvências aclaram fragilidades cuja fonte do problema é a mesma. Uma análise mais aprofundada não compromete apenas a crise económica como causa principal para a suspensão de actividade, mas, sobretudo, a ausência da combinação óptima dos factores produtivos. Isto traduz-se por constrangimentos vários: organização, finanças e tecnologia. É óbvio que os recursos financeiros representam um importante papel, e a tecnologia contribuiu igualmente para o desenvolvimento sustentado das empresas. Porém, quando a organização não aprendeu como agir e reagir para responder aos problemas e desafios de um mercado que actualmente opera a um nível mais elevado de exigência e complexidade do que no passado, as insolvências acabam por acontecer, inevitavelmente.
Enquanto o setor gráfico definha no número de empresas, outros sectores de actividade, como p. ex., a têxtil, o calçado e outras, que em tempos passaram por um abalo sísmico, emergem em tempo de crise como indústrias avançadas, pujantes de vitalidade, saltando fronteiras.
Os erros do passado, como a má utilização dos fundos europeus destinados à formação e modernização das suas indústrias, em parte desviados de forma imoral para outros fins de interesses pessoais - prática comum em muitos sectores de actividade, que teve consequências altamente gravosas para o desenvolvimento do tecido industrial -, serviram de exemplo para que viesse a surgir, mais tarde, uma nova consciência, disposta a corrigir desvarios do passado e desenvolver uma nova ética empresarial, virada para as condições e os meios adequados para tornar possível o desenvolvimento sustentado das suas indústrias. De igual modo, compreendendo a importância crescente da tecnologia e da utilização dos seus recursos, projectados para novos processos de inovação e de variedade de produtos, souberam redesenhar processos e produtos industriais de enorme valor acrescentado.
 
Ao invés, no sector gráfico, continua-se a investir em equipamentos usados, sem garantia, comprados ad hoc a freelancers duvidosos, sem atender à importância de uma criteriosa inspecção em funcionamento ou a uma revisão geral; à idoneidade, competência e disponibilidade do seu parceiro de ocasião, capaz de lhe cobrir as costas em todo o momento com serviço eficaz e peças de reposição. Um risco, deixando adivinhar o pior.
Abundam as más experiências em investimentos que pareciam um negócio da China e, afinal, as expectativas saíram goradas. Mas o que é incrível e surpreende, é que depois de alguém de boa vontade ter solucionado situações complexas e aparentemente insanáveis, que puseram os cabelos em pé a alguns empresários, estes, em vez de se porem em guarda, talvez por amnésia, reincidem no risco! E depois, sem acanhamento, voltam a dar piruetas de linguagem a pedir ajuda…
 
A nua verdade é que uma parte dos nossos empresários gráficos, alheados das consequências, podem não ter grandes hipóteses de aliviar as suas fraquezas diante de uma concorrência fortemente agressiva, dotada de tecnologias de ponta e com parceiros de confiança.
É necessário não disfarçarmos a nós próprios o verdadeiro risco que é tomar essa opção. As eventuais pequenas vantagens imediatas do custo de investimento, não dissimulam o perigo que as espreita no horizonte.
Os actuais desafios exigem dos empresários gráficos um posicionamento claro e dinâmico no que se refere à problemática do investimento em tecnologias. São elas que asseguram o princípio da eficiência e garantem o desenvolvimento sustentado das suas empresas.
Aquelas que não seguirem este caminho, mais cedo ou mais tarde, vão fazer-se ouvir num toque a finados.
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